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| Desenho de Carlos Latuff |
Há uma velha máxima – sem autoria até
provem o contrário – que diz “se morar é um direito, ocupar é um dever”. Com o
processo intenso de expansão do mercado imobiliário, incentivado pelo governo
federal, após a crise de 2008, houve uma elevação estratosférica do preço de
terrenos e alugueis nas grandes cidades.
Os preços subiram muito mais que a
inflação, penalizando a população mais desfavorecida. Com o aumento dos valores
de terrenos, observou-se dois processos: primeiro o setor mais desfavorecido da
classe trabalhadora revidou esse aumento, com um incremento da luta, passando a
ocupar prédios e terrenos ociosos; segundo em resposta à classe trabalhadora, o
Estado atendendo aos apelos da sedenta burguesia (sedenta pelos lucros da
especulação imobiliária), maximizou as ações de despejos nos terrenos e prédios
ociosos ocupados pelos trabalhadores.
Casos famosos como o da Favela doMoinho em São Paulo (que sofreu dois incêndios criminosos um em sequência
do outro), para não dizer da multiplicação dos mesmos incêndios, sempre com
autoria desconhecida das favelas paulistanas durante o boom imobiliário da
administração de Kassab, levaram à tona as tentativas mais bárbaras de limpar
terrenos.
Não dá para esquecer da mega operação
de guerra armada pela Policia Militar de São Paulo para limpa o local onde
localizava-se a ocupação do Pinheirinho em São José dos Campos, em 2012.
Ou as tantas desocupações para liberar passagem para as obras da copa domundo.
Como destacado nesse texto, os
trabalhadores resistiram. Embalados pela velha máxima, estabeleceram sem
perceber sementes de poder popular, com sua ação extremamente anticapitalista.
Ao negar sua condição de sem teto, e ocupar os espaços ociosos de nossas
cidades, contraíram um inimigo poderoso. A burguesia sabe que não pode deixar
esses trabalhadores irem contra a lógica da propriedade privada, e muito por
conta disso utilizam de seus representantes nos governos municipais, estaduais
e federais para reprimir essas iniciativas, e negar o exemplo ao resto da
sociedade.
Na sexta feira passada, na cidade do
Rio de Janeiro, moradores da “favela da Telemar” foram duramente
reprimidos e obrigados a deixar o espaço abandonado, que fora ocupado por eles há
duas semanas. Não contentes, o capital foi atrás de outra ocupação, dessa vez
em Santa Catarina. Surgida no fim do ano passado, a “Ocupação Amarildo” sofre
ameaças desde sua criação. Em comum entre ambas há o recado do capital: o
mínimo de radicalização dos trabalhadores não será tolerado. Em resposta aclasse trabalhadora e seus aliados, aponta que irá resistir. Por isso
convidamos à todos a se solidarizar com os moradores desocupados da “favela da Telemar”
e com os moradores da “Ocupação Amarildo” para ajudar em suas lutas.
CRIAR
PODER POPULAR!!!
Segue na sequência um relato sobre a
experiência da Ocupação Amarildo em Santa Catarina, e o apelo de seus bravos
lutadores à solidariedade contra a violência da burguesia catarinense e do
governo do estado:
Governador
quer desalojar 500 famílias da Ocupação Amarildo, na SC-401
O governador de Santa Catarina, Raimundo Colombo, o prefeito de
Florianópolis, César Souza Junior, e o juiz agrário Rafael Sandi estão prestes
a autorizar um massacre contra as quase 500 famílias da Ocupação Amarildo de
Souza, no norte da ilha de Florianópolis.
A reintegração de posse, prevista para amanhã, terça-feira, 15, é
baseada em um acordo covarde e ilegítimo, firmado em fevereiro quando ainda se
pensava que o dono da terra era Artêmio Paludo. O empresário pretendia
construir ali um mega empreendimento turístico que incluía até um campo de
golfe. Porém, hoje sabe-se que as terras são públicas. O despejo, portanto, deve
ser suspenso imediatamente!
Segundo a Superintendência do Patrimônio da União (SPU), a área
ocupada encontra-se totalmente inserida em propriedade da União, caracterizada
como Terreno de Marinha. As terras foram roubadas por Paludo, com a conivência
do Estado, durante a ditadura militar.
Estão sendo feitas novas audiências para um novo acordo com
INCRA, ICMbio, SPU e Ministério Público Federal. Mas a Justiça, o Governo de
Santa Catarina e a Prefeitura insistem em despejar os Amarildos de forma
arbitrária e não oferecem alternativas às 500 famílias, com 120 crianças, a não
ser o peso da violência policial.
A Ocupação foi construída de forma coletiva pelos moradores, que
se organizaram em núcleos e ergueram suas casas e agora trabalham na terra,
produzindo alimentos sem uso de agrotóxicos. Os Amarildos querem tornar as
terras produtivas com um assentamento de agricultura familiar, que sirva de
moradia para os trabalhadores e de abastacimento alimentar para a cidade. Para
a Ocupação, essa sim é uma alternativa viável!
A terra é
pública! Amarildo faz parte desta ilha!
DESPEJO
NÃO! NEGOCIAÇÃO SIM!
AMARILDO
VIVE!
Fonte: Página
da Ocupação Amarildo no Facebook: https://www.facebook.com/pages/Ocupa%C3%A7%C3%A3o-Amarildo-de-Souza-Florian%C3%B3polis/203034609885584?fref=ts
Ocupação Amarildo começa nova fase: SPU diz que as
terras são da União
Rubens
Lopes
São 900 hectares de
terra vazia, à beira do Rio Ratones, que já foi uma espécie de celeiro da ilha,
com plantação de feijão, mandioca, batata e hortaliças
21/03/2014
Por Elaine Tavares,
De Florianópolis (SC)
Quando o pedreiro
Amarildo de Souza, morador de uma favela do Rio de Janeiro, entrou naquele
camburão que o levaria para a morte talvez já estivesse ciente de seu destino.
Pobre, negro, rebelde, perguntão, impaciente com a dureza da vida,
deve ter intuído que tudo se acabaria nas mãos de uma polícia que não
tem por princípio a defesa do cidadão. Mas não.
Sua morte sob tortura,
seu corpo desaparecido, seus olhos graúdos de espanto, semearam um movimento
nacional de solidariedade e desejos de justiça. Hoje, na longínqua cidade
de Florianópolis, no sul do Brasil, ele é o nome que impulsiona uma luta
inédita, de gigantescas proporções, que está colocando em cheque nomes e
fortunas até então jamais questionados.
Amarildo de Souza é como
foi batizada uma ocupação de terra improdutiva no norte da ilha de Santa
Catarina. São 900 hectares de terra vazia, à beira do Rio Ratones, que já foi
uma espécie de celeiro da ilha, com plantação de feijão, mandioca, batata e
hortaliças. Isso sem contar a generosa produção de peixe, ofertada pelo rio,
piscoso demais.
Bem próximo a uma
badalada praia de alto padrão - Canasvieiras - o acampamento fincou suas
primeiras barracas no dia 17 de dezembro de 2013. Eram apenas 60
famílias, premidas pelos altos aluguéis da famosa "ilha da magia",
que propagandeia suas belezas por todo o país, mas só aceita moradores
"nobres". Aos pobres, o que se oferece é uma passagem de volta para
casa. Mas, gente há que vem de longe e exige seu espaço de cidadão da cidade.
"Somos todos brasileiros, qualquer lugar é nosso lugar".
Quando chegou o natal de
2013, mais gente já tinha se somado à insólita ocupação. E quando 2014
despontou já eram mais de 700 famílias montando suas tendas, trazendo seus
poucos pertences, seus bichos e suas crianças. A ocupação Amarildo abriu um
espaço de esperança para centenas de pessoas que não tinham mais como comer e
morar ao mesmo tempo.
A reação da cidade foi
de espanto. Para quem estava acostumado a paisagem bucólica do caminho para
Canasvieiras, aqueles barracos de lona eram uma provocação. Mal sabiam que os
verdes campos de mato baixo logo seriam derrubados para um empreendimento milionário
de um novo Campo de Golfe. Até então o que se sabia era de que aquela terra
toda pertencia a uma empresário local, Artêmio Paludo, que há muito tempo
tentara criar ali uma fazenda de camarões, sem sucesso. O negócio faliu e tudo
ficou abandonado.
Agora, o projeto para a área era esse campo de golfe, espaço de
diversão para gente rica, que daria mais dinheiro a quem já tem. Foi com essa
conjuntura que a ocupação foi armada. Terra sem cumprir sua função social, diz
a Constituição brasileira, é passível de reforma agrária. E, também como diz a
lei, uma terra serve à reforma agrária independentemente de estar na área rural
ou na cidade. 900 hectares é uma latifúndio, e se não produz, há que se
destinar. Assim, as famílias que entraram na área vieram com essa
intenção. Morar e plantar, produzir comida. No centro da luta estava a reforma
agrária.
Já no mês de janeiro, passado o susto e as festas, a reação da
elite florianopolitana se fez notar através de suas bocas alugadas na imprensa.
Jornalistas raivosos começaram a algaravia de sempre: são bandidos, são
favelados, são ladrões, vão trazer insegurança para o bairro que é nobre, estão
quebrando um princípio sagrado de não respeitar a propriedade privada.
Na verdade, esses jornalistas estavam defendendo o "sagrado"
direito dos ricos proprietários, que agora já se sabia, incluía outros sócios
como o Grupo Habitasul e o dono do complexo do Santinho (condomínio de alto
luxo). E foi assim que começou a reação aos "favelados" que ousavam
se apropriar de terra de gente de bem. Durante semanas, as notícias nos meios
massivos e nos pequenos jornais de bairro que são financiados por partidos de
direita ou empresários, derramaram todo o seu show de preconceito e
desinformação.
Mas, a ocupação Amarildo, sem querer, mexeu num vespeiro bem
maior do que se podia imaginar. Na tentativa de expulsar as famílias o então
suposto proprietário da área entrou na Justiça exigindo a desocupação. Para
isso, a justiça precisou pedir a ele as provas de sua propriedade sobre a
terra. Não havia. Depois de muitas semanas ele conseguiu apresentar as
escrituras de apenas 9 dos 900 hectares que dizia serem seus.
Mais tarde, mesmo esses nove hectares foram colocados sob
suspeita, uma vez que a certificação em cartório tinha se dado na época em que
ele ocupara o cargo de Secretário de Agricultura do Estado. Isso podia
significar grilagem de terra, em função do poder do cargo. A confusão estava
armada. Ponto para Amarildo. Sem provas de propriedade, e com os títulos sob
suspeição, não houve despejo.
Ainda assim, nos dias em que a Justiça ainda não sabia da
grilagem, uma reunião de conciliação entre acampados e o suposto proprietário
acertou a saída das famílias nos primeiros dias de abril. Esse acordo agora
está sendo considerado sem valor, uma vez que as terras não são do empresário.
Por conta disso, novas frentes de luta se abrem e os "amarildos"
(como são chamados os ocupantes) disputam nos órgãos competentes o direito de
permanecerem na terra e seguirem com o projeto de agrovilas.
Uma reunião histórica
E foi para ouvir a resposta de vários órgãos do Estado sobre essa
questão que a Assembleia Legislativa abriu suas portas nesse dia 19 de março,
em reunião convocada pela Comissão de Direitos Humanos, com a presença dos
deputados Luciane Carminati, Angela Albino e Sargento Soares. Além deles,
também vieram representantes da Justiça Agrária, da Secretaria do Patrimônio da
União, Ministério Público, Procuradoria Federal e Municipal, Ouvidoria do Incra
e Instituto Chico Mendes. Era o momento de saber, oficialmente, a resposta da
SPU sobre de quem eram, efetivamente, as terras que estavam servindo de morada
a todos os amarildos.
Assim, eles vieram com suas camisetas vermelhas, bandeiras,
crianças, faixas, músicas e aquele sorriso na cara de quem acredita estar numa
luta justa. Quando bateu cinco horas, pelo menos umas 300 pessoas já estavam em
frente a Assembleia. Queriam entrar e ver com os próprios olhos tudo que seria
discutido ali. Depois de muita conversa, a casa do povo finalmente decidiu que
o povo podia entrar. Mas, como ali estavam os pobres, tiveram de passar pelo
constrangimento da revista policial, abrindo suas bolsas, braços e pernas para
a passagem do detector de metais.
Algo jamais feito quando são empresários ou pessoas brancas e bem
vestidas. Tudo, bem, o pessoal aturou mais essa, fazendo piada e levando na
flauta. Organizados pela equipe de segurança foram entrando, um a um, e
ocupando as cadeiras do auditório Antonieta de Barros. Uma imagem simbólica, já
que a professora Antonieta foi a primeira mulher negra a assumir um cargo de
deputada. E seu retrato, no alto da porta, sorria para os amarildos, a maioria
seus irmãos de cor e de luta. Ali se daria uma batalha histórica. Sem armas.
Com canções e palavras de ordem.
Auditório cheio, vieram as falas. Os deputados, reafirmando a
ideia de que morar é um direito humano. O jovem juiz agrário, Rafael Santi, que
já visitou o acampamento várias vezes, deixou claro que a área em Canasveiras
tem todas as características de um imóvel rural, podendo, portanto, se prestar
à reforma agrária. Segundo ele, esse é movimento que não tem precedentes em
Santa Catarina - uma ocupação rural, na cidade - e, por isso, no início,
a justiça ficou confusa sobre como proceder. Mas, agora, não resta dúvida de que
essa questão deve ser tratada no âmbito da Justiça Agrária.
Em seguida, o ouvidor do Incra, Fernando Souza, também reafirmou
a possibilidade de o Incra atuar no acampamento criando um projeto que já
existe no âmbito do órgão agrário, que é o Projeto Casulo, justamente o plantio
coletivo da terra, como querem as famílias da ocupação Amarildo. A fala mais
esperada, da superintendente da SPU, Sílvia de Luca, foi curta e incisiva: as
terras são da União. O único entreve para ocupação seria a questão ambiental.
Afinal, ali existem mangues e restingas que são de preservação permanente. Mas,
o representante do Instituo Chico Mendes, deixou claro que há espaço para
ocupação e utilização da área, principalmente se for de uso coletivo.
Ao final do encontro, diante da posição de todos os envolvidos,
ficou a certeza de que existem todas as chances de a ocupação garantir o espaço
para a vida de todas as famílias que hoje lá estão. A terra é da união, tem
espaço para utilização, é passível de desapropriação para a reforma agrária.
Ainda existem muitas portas burocráticas a serem abertas, mas quem vê os olhos
cheios de eternidade de cada uma daquelas pessoas sabe que toda a espera valerá
a pena.
Para as bocas alugadas da imprensa fica a lição: antes de sair em
defesa esganiçada de um de seus amigos, sempre é bom buscar a informação
correta. Se houve alguém que "passou a mão" nas terras públicas, não
foram os amarildos. Eles e elas reivindicam hoje um direito humano, de ocupar
um espaço de terra para morar e plantar. A propriedade da terra é do Estado e
as possibilidades estão dadas. Mas, ainda que fosse uma propriedade privada,
também poderia ser questionada.
Em várias situação, dentro do estado liberal, a propriedade
privada por ser desapropriada, ela não é intocável, como querem fazer crer os
pretensos defensores da lei. A própria lei diz que uma área privada pode
ser usada para uso coletivo, público, ou desapropriada quando não cumpre sua
função social, ou quando mantém gente em trabalho escravo.
Na noite chuvosa desse 19 de março, pode-se ouvir o leve arrastar
de chinelos de Mara Dilci Tavares, uma senhora de 74 anos, chamada,
carinhosamente, por toda a gente da Amarildo, de "vózinha", que se
converteu na figura símbolo da ocupação, por sua força de luta e pelo desejo
inarredável de terminar a vida numa casa que pode chamar de sua, e numa
comunidade onde uma mulher velha pode viver sozinha, sem nunca estar só.
Amparada pelo braço de uma jovenzinha, ela se foi, sorrindo. Com ela, a
esperança, dançando, graciosa. E talvez, também Amarildo que, com seu sangue,
pavimentou a realidade de todas essas vidas.
Fonte: Brasil
de Fato, link: http://www.brasildefato.com.br/node/27853



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