Uma equipe de filmagem espanhola pretende realizar uma produção
sobre o início da colonização nas Américas, dando destaque à figura do frade
dominicano António de Montesinos, que pretendia combater os atos dos
colonizadores contra a população indígena. Seria, para o diretor da obra, a
valorização do humanismo, um exemplo retirado do passado extremamente
necessário nos dias de hoje, em que o individualismo impera.
Como o filme é uma mercadoria, e a lógica do mercado dita a
necessidade de retirar-lhe alguma renda, ele não será gravado na Espanha, ou
nos Estados Unidos, com seus estúdios de ponta. Será gravado em Cochabamba, na
Bolívia, onde os custos da produção são bem mais em conta. Incluem-se, aqui, os
gastos com figurantes, todas pessoas da região.
Pois bem, essas mesmas pessoas sofrem, no período das gravações,
com a consequências da privatização do sistema de água. A empresa estrangeira
que administra o serviço não permite nenhuma obra popular de canalização da
água ou da feitura de poços, nem mesmo o aproveitamento da água da chuva.
As mobilizações contra esses limites postos pela empresa de águas
da região, naquilo que ficou conhecido na história como "A guerra da
água" envolvem também os atores, afetando as gravações do filme.
A lógica do mercado exige a continuação das filmagens e a
consolidação da privatização da água. A luta se faz necessária. Mas qual a
posição a ser tomada pela equipe de filmagem, que tanto preza por um exemplo
humanista, mas cuja razão de ser daquele momento é simplesmente terminar o seu
trabalho?
O filme trata da questão do engajamento, ou seja, da tomada de
posição diante do reconhecimento de um problema que interessa a mais de uma
pessoa. No seu caso específico, a falta d'água. Para além da ficção, “A guerra
da água” representou o início da mobilização popular boliviana que afastou as
grandes corporações do controle dos serviços essenciais, retornando-as ao poder
público, gestionado não mais sem a participação popular. Uma lição que poderia
ser posta em prática também em nossa cidade.

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