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| Desenho magistral de Carlos Latuff |
(Nota Política do PCB)
O Brasil do final da década de 1950 e início dos
anos 1960 vivenciava uma crise de consolidação e de crescimento do capitalismo
no país, resultante do próprio processo de acumulação acelerado pelo modelo econômico
implantado por Juscelino Kubitschek. O Estado brasileiro garantiu a
infraestrutura necessária ao pleno desenvolvimento capitalista, com a montagem
recorde dos setores mais dinâmicos da estrutura industrial brasileira,
capitaneados, dentre outras, pelas empresas automobilísticas, de construção
naval e mecânica pesada, majoritariamente controladas por capitais externos. A
expansão capitalista era obtida com o aumento da produtividade industrial, com
a incorporação de novas tecnologias facilitada pela abertura ao capital
estrangeiro e o aprofundamento da exploração da força de trabalho.
Se esta política foi capaz de promover um alto
grau de desnacionalização da economia brasileira, ao mesmo tempo não significou
contradição aberta com os interesses dos capitalistas nacionais, pois propiciou
a formação de um núcleo de empresas associadas aos grupos multinacionais
instalados no Brasil. Esse quadro acabou projetando a burguesia brasileira
associada ao capital internacional a uma posição de destaque dentre as demais
frações da classe dominante que compunham o Estado no chamado “pacto
populista”, até então mantido com base no equilíbrio entre elas. Os setores
mais dinâmicos da burguesia brasileira queriam distância de qualquer projeto
nacionalista que, de um lado, rejeitasse ou limitasse a presença do capital
estrangeiro no país e, de outro, favorecesse ou não impedisse a mobilização
crescente da classe trabalhadora e das massas populares por seus direitos.
Ao mesmo tempo, o desenvolvimento do capitalismo
requeria uma nova onda de expansão produtiva, com o aprofundamento do processo
de concentração de capital, a ser implementado por meio da expulsão do mercado
das empresas menos poderosas e, portanto, menos competitivas. Logo, estava se
dando uma crise de superacumulação do capital ou de superprodução, típica da
fase monopolista do capitalismo. No início da década de 1960, a existência de
um governo como o de João Goulart, identificado com propostas
desenvolvimentistas nos marcos de um “capitalismo nacional autônomo” e que, em
função de suas origens históricas, era obrigado a dialogar com as lideranças
sindicais, significava claramente um obstáculo às pretensões da grande
burguesia integrada de forma subalterna ao capital internacional, disposta,
então, a tomar de assalto o poder de Estado, para fazer valer plenamente seus
interesses.
Por outro lado, verificava-se no período a
participação ativa de amplas camadas de trabalhadores urbanos e rurais nos
embates políticos, atraindo setores de camadas médias, com destaque para
estudantes e intelectuais. Se a ampliação da mobilização popular não colocava
imediatamente em xeque a ordem capitalista, não deixava de representar uma
séria ameaça aos interesses das frações de classe burguesas ligadas aos bancos,
à grande indústria e ao latifúndio. Isto levava a uma conjuntura de crescente
tensão, com o governo de João Goulart sendo pressionado por todos os setores da
luta política e sofrendo um esvaziamento de poder e autoridade.
A resposta dos grupos capitalistas mais articulados
no período, constituídos pela burguesia industrial, financeira e latifundiária,
foi a preparação de um movimento reacionário para conter de pronto a ameaça que
vinha das massas trabalhadoras. O golpe de estado de 1964, além de ter
representado uma ação repressiva no sentido de esmagar e desbaratar as forças
populares em ascensão, também teve por objetivo o rearranjo das forças
políticas no núcleo central do poder, ao afastar as frações burguesas
consideradas ultrapassadas, do ponto de vista do modelo de desenvolvimento
econômico que se pretendia aprofundar, visando à consolidação do capitalismo
monopolista no país, para o que seria necessário radicalizar a expropriação da
classe operária, em níveis ainda mais violentos do que praticados
anteriormente.
A ação golpista encontrou tímida resistência do
conjunto do movimento sindical e popular. A linha política adotada pelo PCB,
que influenciava amplos setores do movimento operário, na prática desarmava a
militância para o enfrentamento à onda reacionária que tomava vulto a partir da
difusão da ideologia anticomunista e do discurso do “perigo vermelho” pregados
pelas associações empresariais e entidades como o IPES e o IBAD, aparelhos
privados da hegemonia capitalista, além dos aparatos tipicamente coercitivos,
como o Exército e a Escola Superior de Guerra, o que terminou contagiando
parcelas significativas das camadas médias, atraindo-as para o apoio ao golpe
de 1964.
As interpretações equivocadas da realidade
brasileira, ainda vista como marcada por resquícios “feudais” e a definição da
estratégia da revolução brasileira como nacional-democrática, a prever a
aliança dos trabalhadores com uma “burguesia nacional” pretensamente indisposta
com o imperialismo, fizeram com que os comunistas, assim como as principais
lideranças dos grupos envolvidos nas lutas pelas reformas, subestimassem a
preparação dos grupos fundamentais da classe dominante em direção ao golpe de
estado. O PCB, com a Declaração de Março de 1958, entendia ser necessário lutar
pela consolidação e ampliação da legalidade democrática, partindo da premissa
segundo a qual era possível interferir mais diretamente no processo de mudanças
vivido pela sociedade, organizando as pressões populares sobre o Estado e
conduzindo a revolução brasileira por meios pacíficos. A dificuldade de
associar a realidade brasileira da época à de uma sociedade capitalista madura
levou a conclusões contraditórias, como a de apostar num projeto de revolução
nacional-democrática, etapa ainda a ser realizada antes da revolução socialista.
Na prática, a condução do processo ficou em mãos de setores da burguesia que
não tinham pretensões de promover grandes mudanças no quadro social e econômico
brasileiro.
No entanto, após a instalação da ditadura e
depois de um período de dispersão, em função de ter subestimado a possibilidade
de golpe, o PCB foi capaz de articular instrumentos para a construção da
resistência nos espaços possíveis, buscando ampliar a luta no sentido da
retomada do movimento de massas, ao mesmo tempo em que participava da criação
de uma grande força oposicionista congregada na frente democrática. Na década
de 1980, os setores moderados da oposição burguesa liberal negociaram a
transição pelo alto na direção da democracia formal, e o amplo movimento de
luta contra a ditadura não foi capaz de aprofundar a mudança no rumo de uma
alternativa anticapitalista para o Brasil.
O PCB, ao participar ativamente da resistência
contra a ditadura e mesmo corretamente não tendo aderido à luta armada – por
entender que essa forma de luta não era compatível com a correlação de forças
-, pagou um alto custo por essa jornada de lutas: centenas de militantes
comunistas foram presos, torturados, assassinados e exilados. Antes de
implementar a “abertura lenta, segura e gradual”, e depois de derrotar as
organizações que recorreram à luta armada, a ditadura concentrou-se numa
violenta empreitada de liquidação do PCB.
No início de 1973, o dirigente regional do PCB
Célio Guedes foi morto com um tiro na nuca nas dependências do Cenimar no Rio
de Janeiro. No ano de 1974, foram assassinados os dirigentes nacionais Davi
Capistrano da Costa, morto com requintes de crueldade; José Roman, operário;
João Massena, metalúrgico; Luiz Ignácio Maranhão Filho, jornalista; Walter de
Souza Ribeiro, oficia do Exército e ativo militante das lutas pela paz. Também
foi morto neste ano o professor de História e presidente do sindicato dos
professores do Rio de Janeiro Afonso Henrique Martins Saldanha.
No ano de 1975 a repressão seria ainda mais
violenta contra o PCB, eliminando os membros do Comitê Central Elson Costa,
líder da greve dos caminhoneiros em Minas Gerais; Hiran de Lima Pereira; Nestor
Veras, líder das lutas camponesas; Itair Veloso, operário da construção civil;
o jornalista e advogado Orlando da Silva Rosa Bomfim Júnior; o jornalista e
advogado Jayme Amorim de Miranda; o dirigente da juventude comunista José
Montenegro de Lima. Seus corpos nunca foram encontrados até hoje. E mais:
morreram sob torturas o gráfico Alberto Aleixo, o tenente da PM de São Paulo José
Ferreira de Almeida, o coronel reformado José Maximino de Andrade Netto, o
comerciário Pedro Jerônimo de Souza. Fechando o ano de 1975, a repressão
assassinou, sob tortura, Vladimir Herzog, professor da USP e jornalista,
militante da base cultural do PCB em São Paulo. No ano seguinte, ainda
tombariam, vítimas da ditadura, a militante Neide Alves Santos e o operário
metalúrgico Manoel Fiel Filho, responsável pela distribuição do jornal Voz
Operária nas fábricas da Mooca, em São Paulo.
Na sua reorganização, após a volta dos anistiados
em 1979, o Comitê Central eleito em 1982 levou o Partido para o caminho da
conciliação de classes, insistindo em manter a política de frente democrática,
que tinha sido correta até então - mas já estava ultrapassada -, ao invés de
promover uma inflexão para alianças à esquerda.
Superado o período ditatorial, 30 anos da chamada
redemocratização da vida política nacional foram incapazes de alterar o quadro
fundamental de uma sociedade marcada pela profunda desigualdade social, em que
os governos de plantão tudo fazem para garantir os altos lucros das empresas,
dos bancos e do latifúndio, plenamente integrados ao capitalismo internacional
e retomando o aparato repressivo dos tempos de ditadura para conter, com todo o
terror de Estado, a ameaça ao poder burguês identificada nas manifestações
populares e na luta de classes. Isso porque mudou a forma da hegemonia
burguesa, com o restabelecimento da legalidade democrática, mas o sistema
capitalista em nada foi alterado, aprofundando cada vez mais a desigualdade e a
exclusão social.
A transição pelo alto que conduziu o processo de
passagem da ditadura para a democracia formal burguesa garantiu a impunidade
dos torturadores e assassinos que atuaram a serviço do regime, possibilitando
que hoje a tortura e a execução sumária de pessoas – em sua maioria,
trabalhadores pobres, marginalizados pela sociedade de mercado – continue a ser
uma prática adotada pela polícia em todo o país.
Aos 92 anos de existência, o PCB, vivendo hoje o
processo de reconstrução revolucionária, reconhece os erros cometidos no
passado e exalta os acertos, destacando o papel heroico de todos os quadros do
Partido que lutaram contra a ditadura, sobretudo daqueles que pagaram com sua
própria vida o compromisso histórico com a transformação da realidade
brasileira e a revolução socialista.
PELA REVOGAÇÃO DA LEI DE ANISTIA, COM A PUNIÇÃO DOS TORTURADORES, ASSASSINOS E COLABORADORES DO REGIME DITATORIAL
PELA REVOGAÇÃO DA LEI DE SEGURANÇA NACIONAL E DA PORTARIA DO MINISTÉRIO DA DEFESA, QUE PROMOVE A VOLTA DOS MILITARES À REPRESSÃO DOS MOVIMENTOS POPULARES.
PELA DESMILITARIZAÇÃO DAS POLÍCIAS.
COM O PODER POPULAR, RUMO AO SOCIALISMO!
Comitê Central do PCB.

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