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quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Dica Cultural da Semana 11/09/2014 - A Batalha do Chile: A luta de um povo sem armas - Terceira parte O Poder Popular (1980) de Patrício Guzmán



Hoje é dia de relembrar mais um dia sórdido para a humanidade. Não se trata de falarmos do 11 de setembro estadunidense, mas da destruição de um sonho, de um projeto novo de humanidade, de relações sociais novas, de uma nova vida.

Quando da eleição de Allende, o mundo atentou-se para um novo projeto ousado de construção da via chilena ao socialismo. Trata-se de um grande projeto de tomada do Estado e posteriormente colocar em prática, pela legalidade própria da democracia burguesa, os pressupostos de uma nova sociabilidade que fossem para além de si, isto é, que tivesse como fim último, destruir a si próprio.

Diante de toda coalizão feita para que Allende fosse eleito presidente e que tivesse à disposição (sua e da causa socialista) uma grande bancada de socialistas de comunistas, muitos param para observar somente os avanços dentro dos marcos da legalidade burguesa e não observam as efervescências das ruas e a construção de um outro mundo fora dos limites da institucionalidade do Estado.

Todo processo de acirramento da luta de classes que podemos observar (e já demonstramos de alguma forma nos textos anteriores), empurra Allende a assumir posturas cada vez mais radicalizadas. A disputa política que havia no interior da Unidad Popular contribuía para a aglutinação de uma grande base social de apoio ao governo. Isto é facilmente comprovado com os números de aprovação, o aumento da bancada de deputados em 1972, auge da radicalização e polarização política entre UP e oposição, e a quantidade de pessoas na rua, quase semanalmente, em protestos em defesa dos avanços.


O fato de que Allende era um convicto defensor da "revolução pacífica", se é que assim podemos chamar, o colocou em uma sinuca de bico para com seus aliados mais à esquerda, e com os oposicionistas por conta do conteúdo democratizador que suas propostas tinham.

Durante os três anos de governo, muito se acreditou ter conseguido controlar de fato o Estado chileno, isto é, os três poderes (Executivo, Legislativo e o Parlamento). Esta certeza talvez os possa ter obscurecido algumas leituras de conjuntura. Comum em seu governo, Allende contava com uma ampla campanha internacional contra seu mandato e com a participação direta da CIA (Serviço de Inteligência dos EUA) financiando grupos paramilitares de extrema-direita.

Agora, o que nos interessa é demonstrar como a população de fato incorporou o projeto socialista da UP e o pôs em prática em diversas ações, localizadas ou não, que puderam demonstrar o quanto estava crescente o avanço da consciência de classe nos grupos subalternos, na classe trabalhadora.

Em um primeiro momento, com o boicote dos produtores rurais e dos comerciantes, o governo criou as Juntas de Abastecimento Popular, que foi levada a diante graças ao esforço militante e ação convicta de grande parcela da população que apoiava a UP. Poderiam ter debandado rapidamente pois conviver com a falta de alimentos essenciais para suas famílias, facilmente levariam muitos a considerar que a UP não era uma opção para governar.

No entanto, o que se observou? A classe trabalhadora, dado sua consciência de classe mais avançada, tinha clareza dos reais culpados por sua penúria e agiram firmemente em dois sentidos: 1) na defesa do projeto socialista e do governo; 2) na consolidação das JAP's, isto é, na distribuição igualitária (e por vezes racionada) dos alimentos e demais itens de atenção primária.


Isto não poderia ser somente solidariedade com o mais próximo? Tanto poderia como, de fato, o era. Contudo, esta solidariedade não se prendia ao seu significado comum que vemos no cristianismo: a solidariedade observada neste trabalho militante é de um alcance profundo e de uma entrega, com toda certeza, revolucionária. Era a doação contundente de seu tempo e disposição em prol de um futuro radicalmente diferente para os seus filhos e afins.

Uma segunda demonstração da convicção revolucionária da classe trabalhadora chilena foi a criação dos cordões industriais no entorno de Santiago e em diversas outras regiões do Chile. Estes cordões são a explicitação mais clara do que se convencionou chamar de Poder Popular. E porquê? Porque foram ações coordenadas de auto-organização da classe trabalhadora para manter a produtividade de setores essenciais para os arrecadamentos do Estado, que por sua vez, investia na qualidade de vida da população.

Tais cordões representavam a interligação de diversos ramos da indústria do Chile e da produção precisa dos itens que o país necessitava para que não entrasse em colapso financeiro por conta do boicote internacional de vendas, compras e empréstimos ao governo da Unidad Popular.

Semelhante à estes cordões, muito se fez no campo. O avanço da Reforma Agrária (forçada em muitas ocasiões) foi significativo e iniciou um novo cenário social no que diz respeito à distribuição e socialização da terra e de suas benesses (alimentos e afins).

O que podemos tirar de grandioso desta maravilhosa experiência da Unidad Popular no Chile é que neste período se ousou sonhar (e construir de fato) uma nova experiência de sociedade. Ainda que em muitos aspectos estivessem presos à institucionalidade e mediocridade da vida burguesa (tal qual temos hoje no Brasil), naquele momento a classe trabalhadora estava em um patamar de consciência de classe muito avançado e já não se contentava com as misérias cotidianas que não são impostas pelo capitalismo.

Nos corações e mentes dos chilenos, palpitavam um outro mundo, uma nova sociedade e um novo entendimento de como devem ser as novas relações sociais. Mas, mais do que isto, os braços e pernas caminharam no sentido de tornar real estes desejos e utopias.

É por isso, tomando-os também como exemplo, é que o PCB tem como principal projeto para as eleições de 2014 realizar um debate sincero com a população acerca da necessidade de construirmos um novo mundo. É por isso que nosso programa de campanha tem como palavra de ordem: PODER POPULAR: POR UM BRASIL SOCIALISTA!


Todo o alvorecer cultural que brotou do esforço cotidiano monumental de milhões de chilenos deve sempre ser, para nós, uma grata contribuição para o entendimento de nossos sonhos. Foram fiéis ao desejo da transformação radical, morreram em nome de outro mundo para os futuros viventes. Ousaram sonhar, ousaram lutar para consolidar o que de mais humano podemos oferecer uns aos outros: uma vida e não somente a sobrevivência desumanizadora em que estavam inseridos e ainda estamos nós.

É em busca do Poder Popular que nós, militantes do PCB, ousamos sonhar junto. Mauro Iasi, candidato a presidência pelo PCB, disse certa vez, e consideramos que muito diz sobre nós: "Se perdermos nossa capacidade de sonhar, de ousar, de imaginar que um outro mundo pode ser possível, teremos perdido aquela que é, talvez, a qualidade mais essencial do ser humano. É ISSO QUE ACREDITAM OS COMUNISTAS!"   


quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Dica Cultural da Semana 04/09/2014 A Batalha do Chile: A luta de um povo sem armas - Segunda parte O golpe de Estado (1977) de Patrício Guzmán



Ironicamente, hoje completam 44 anos do dia em que a Unidade Popular, encabeçada por Salvador Allende, gritava nas ruas a vitória nas urnas. Contudo, falaremos dos recursos utilizados pela burguesia chilena e internacional para derrubar o governo eleito. Os tempos que se aproximavam seriam intensos e cada vez mais polarizadores.

Em 1964, elege-se Eduardo Frei, candidato da Democracia Cristã, para o governo. Como é possível ver em alguns autores que estudam o assunto, durante o governo de Frei o Chile foi o país que mais recebeu, per capita, dinheiro dos Estados Unidos da América. Não obstante, muitas das reformas efetivadas pelo programa de governo chamado "Revolução em Liberdade", tivesse um claro conteúdo de facilitar o domínio dos capitais estadunidenses sobre os setores estratégicos do país: cobre e salitre.

Quando das eleições em 1970, o candidato Salvador Allende ganha as eleições por uma margem apertada e foi necessário que a Constituição fosse visitada. Na história política do Chile, todo candidato que ganha as eleições, mas não com mais de 50% dos votos, precisa que o Senado e a Câmara de Deputados viabilize, assinando, a posse do candidato. Radomiro Tomic, candidato do campo progressista da Democracia Cristã, logo assume e ratifica a vitória de Allende visando não tumultuar o processo. No entanto, os demais colegas correligionários e de outros partidos não querem deixar que o marxista Allende assuma o poder.

Abdicam certamente dos procedimentos democráticos em favor da manutenção do governo nas mãos de um deles. E é aqui que começam todos os preparativos para o fatídico dia 11 de setembro de 1973 em que Allende morre lutando por seu governo, por seus ideais, pelo socialismo enquanto possibilidade existente.

A princípio, toda a articulação anti Allende se reúne para pensar os passos que serão adotados. Dois são os caminhos: dar um golpe de Estado antes mesmo da posse; ou, asfixiar o governo economicamente e por conta da desestabilização forçar a queda de Salvador.

O ex-ministro do Interior de Eduardo Frei, Edmundo Pérez Zujovic, deu declarações em que afirmava tempos sombrios com a posse de Allende. Isto ocasionou uma grande corrida de saques nos bancos, causando uma desestabilização monetária e financeira antes mesmo da UP assumir o governo.

Não bastasse isto, setores mais radicalizados da extrema direita tentam um ato desesperado: fazem uma emboscada para o então comandante-em-chefe das Forças Armadas, René Schneider, líder das forças constitucionalistas, que acaba com sua morte. A ideia era colocar a culpa na instabilidade social que o governo marxista já estava causando no território chileno.

Acontece que o tiro saiu pela culatra, pois os responsáveis acabaram sendo descobertos e com isto, desfez-se o mistério sobre a autoria: ligações evidenciavam os mandatários entre os militantes de extrema direita.

O intento originário de impedir a posse se foi junto à morte de René. As forças opositoras ficam desfavorecidas e enfraquecidas politicamente para tentar algo mais. Allende assume o governo.

Após o fato consumado, as conversas e articulações políticas da oposição precisavam ser mais efetivas e cirúrgicas. Dois caminhos foram pensados: a) track 1: que tratava das medidas políticas de estrangulamento do governo e asfixia monetária; 2) track 2: ou então, "ações encobertas", que compunham medidas de agitação e financiamento de grupos paramilitares e de extrema-direita.

No que diz respeito à track 1 as ações feitas foram: 1) criação de um mercado paralelo de itens de primeira necessidade. Ficaram conhecidos pela forma como impulsionava os setores de classe média para a agitação direitista; 2) corte de financiamentos dos governos como EUA, corte dos empréstimos, o que impossibilitava tornar efetivos e por em práticas as políticas sociais do governo Allende; 3) denúncias e mais denúncias de locais de estocagem de armamentos das organizações aliadas ao governo da UP; 4) desestabilização política em uma crescente polarização política e a criação de um bloco na Câmara e no Senado para barrar todas as medidas propostas pelo Executivo.

Quanto à track 2: 1) financiamento de grupos armados para-militares de extrema-direita como o "Pátria y Libertad"; 2) agitação ideológica com grandes e violentos atos pelas ruas das principais cidades do país; 3) explosão de gasodutos e de plantas industriais para complicar a produção nacional e insuflar as frações da classe dominante e amplos setores da camada média contra o governo; 4) treinamento militar e estratégico dos militantes e militares adeptos ao Golpe de Estado, pela CIA dos EUA.


O que não se pode deixar de esconder é que concomitantemente à isto tudo, ocorriam conversas entre embaixadores estadunidenses e políticos da direita; o empurro para que as forças políticas de centro, em especial a Democracia Cristã, deixasse de dialogar com o governo UP; articulação entre setores da sociedade civil organizada e oficiais de alta patente das três Forças Armadas: Exército, Marinha e Força Aérea. Ocorriam também campanhas internacionais de difamação do governo de Allende. Cardeais de Roma soltaram notas em jornais de grande veiculação, dizendo dos perigos de um governo marxista, COMUNISTA.


Como fim último desta trama pensada por grandes diplomatas, políticos profissionais, oficiais de alta patente e executivos de grandes oligopólios, em junho de 1973 houve um "ensaio" do golpe de Estado que estava por acontecer. O General Viaux se antecipou, por conta de sua ira anti comunista, colocou os regimentos blindados de Santiago nas ruas pedindo a deposição de Salvador Allende.

José Tohá, ministro de Defesa de Allende, Augusto Pinochet (futuro ditador e cabeça do golpe em setembro) e Carlos Prats, comandante-em-chefe das Forças Armadas no Chile, comandaram as tropas leais ao governo para sufocar o levante direitista. Rapidamente foram sufocados e seus interlocutores presos.

Neste entremeio, Allende decide-se por convocar um grande plebiscito popular que daria as bases para a continuidade ou não de seu governo. As forças de inteligência contrárias descobriram a intenção de Allende de contar com a população para manter seu governo e decidiram agir antes. Sabiam que Allende faria o anúncio no mesmo dia 11 de setembro de 1973 sobre sua decisão.

A base social que mantinha de pé o governo Allende era adepta da estratégia revolucionária em que pese o grande destaque deste processo para o "espectro" institucional. Esta ação poderia ser difícil de conter caso Allende ganhasse o plebiscito.


O ano era 1973, dia 11 de setembro, pouco mais das 8:00 da manhã. Oficiais de alta patente, entre eles Augusto Pinochet, então comandante-em-chefe das Forças Armadas, rebelaram-se contra o governo com o apoio de inúmeros regimentos dos blindados de Santiago, com maciça sustentação da Marinha e com o usufruto da logística e armamento estadunidense.