Dando continuidade nas experiências de
poder popular no Brasil e no mundo, este blog traz novamente a experiência dos
trabalhadores da Flaskô, dessa vez não somente sobre a fábrica, mas a
experiência que envolve o seu entorno com a constituição da vila operária.
Lembrando que os trabalhadores da Flaskôestão em campanha, para que o Senado Federal transforme o terreno da fábrica em
área de interesse público, possibilitando a continuidade dessa importante
experiência no Brasil.
Fábrica de cultura e vila
operária
07/11/2011
Joana
Tavares de
Sumaré (SP)
Em 2005,
o terreno ao lado da fábrica, que estava abandonado, foi ocupado por cerca de
300 famílias de Sumaré. A ocupação foi apoiada pelos trabalhadores da Flaskô e
alguns deles inclusive se mudaram para a Vila Operária e Popular. Neste ano,
conseguiram a instalação de água e energia nas casas, mas ainda falta
regularizar o saneamento básico e a iluminação pública. Maria José da Silva
mora há quatro anos na ocupação e tem orgulho de dizer que a casa onde mora é
sua. Ela defende a fábrica ao lado e coloca “que eles ensinam a importância de
lutar pelo que se precisa”. Hoje, 564 famílias moram na região, ainda que
muitas delas não tenham participado do processo de luta da ocupação.
A
comunidade do entorno é convidada a frequentar as atividades promovidas pela
Fábrica de Cultura e Esportes, que realiza atividades mensais e oficinas
semanais. Rafael Dias, do setor de mobilização, coloca que a iniciativa vem da
carência desse tipo de atividade na região. Há oficinas de quadrinhos,
campeonatos de judô, xadrez, damas, aula de espanhol, violão, dança de salão e
treinos de break, cinema gratuito. Neste ano foi realizado o II Festival
Flaskô Fábrica de Cultura, com a apresentação de diversos grupos teatrais, de
música, debates e festa.
“Buscamos
garantir a apresentação de uma peça de teatro por mês. Em quase todas as peças
aqui, vêm pessoas da vila e de dentro da fábrica que colocam que nunca tinham
visto uma peça de teatro na vida”, conta Rafael. Em parceria com o Cemop, são
realizadas também atividades ligadas às universidades, para, segundo Rafael,
“colocar a discussão da gestão operária para dentro do cotidiano do meio
acadêmico”. Outra iniciativa é a TV Flaskô, um canal da web que divulga
a luta dos trabalhadores e a Rádio Luta, que também veicula programas na
internet. Em parceria com a Rádio Muda na Unicamp, há um programa semanal ao
vivo de duas horas sobre o cotidiano da fábrica.
Intervenção
As
fábricas ocupadas viveram seu principal golpe em maio de 2007, quando 150
policiais armados entraram na Cipla e na Interfibra, em Joinville (SC),
atendendo a um pedido do INSS de cobrança de dívidas, e expulsaram as comissões
de trabalhadores eleitas. Foi nomeado um interventor para gerenciar as
fábricas, que coage os trabalhadores a assinar um documento dizendo que eram
favoráveis à intervenção. De 2007 a 2009, segundo o Relatório dos processos
de criminalização da Flaskô, 400 trabalhadores foram demitidos, o regime de
trabalho voltou a ser de 44 horas semanais e as dívidas com o INSS não foram
pagas.
O
interventor tentou atuar também na Flaskô, mas os trabalhadores o expulsaram em
junho e conseguiram revogar a decisão da Justiça de Santa Catarina, que não
poderia atuar em São Paulo. No entanto, o interventor havia solicitado o corte
de energia da Flaskô, deixando a fábrica parada por 40 dias. “O pior é que eles
cortaram sem aviso prévio e as máquinas estavam em funcionamento, com
matéria-prima dentro”, conta Josiane. Além da batalha judicial para reverter a
decisão, foram realizados diversos atos públicos. Após o restabelecimento da
energia, foi necessário consertar as máquinas e retomar a produção, como se
fosse uma segunda ocupação.

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