Fazia algumas semanas que pipocava
na internet a nefasta ideia revivida por alguns de reeditar a “Marcha com Deus,
pela família, propriedade e liberdade”, organizada por setores médios da sociedade
em março de 1964 para protestar contra as “Reformas de Base” prometidas pelo
presidente João Goulart no histórico comício realizado na Central do Brasil no
Rio de Janeiro. A Marcha, então, se mostrou como uma prévia do movimento
golpista do dia 31 de março de 1964, dando a justificativa “civil” para a ação
das Forças Armadas.
Agora 50 anos após o golpe que
tanto impactou negativamente a sociedade brasileira, alguns saudosistas do
regime autoritário resolveram organizar a marcha para pedir apoio novamente dos
militares e “salvar o Brasil do comunismo do PT”. Tais pessoas ignoram os
mortos e desaparecidos pela “longa noite da ditadura”, também ignoram a endêmica
corrupção do período, as sucessivas crises econômicas, se pautam por uma mesquinharia
de que algum “privilégio seu” estaria em risco por parte do governo, ou dos
manifestantes que vão à rua do país desde junho do ano passado.
O revival da marcha não poderia
ocorrer em momento mais oportuno. O país não se encontra às vésperas de um novo
golpe político. As Forças Armadas tão louvadas, mas pouco conhecidas por estes
vestais, não se preocupam mais com a política, já que esta à serve bem na
modernização do armamento do país para sua defesa. O momento oportuno da Marcha
foi que um dos principais entulhos que ainda resiste da ditadura, a Polícia
Militar, cumpriu mais uma vez com seu objetivo constitucional de barbarizar
contra os setores mais oprimidos da sociedade.
No domingo que antecedeu à
marcha, dia 16 de março, a Policia Militar do Rio de Janeiro, com a desculpa de
“lutar contra o tráfico” atirou contra a auxiliar de serviços gerais Claudia
Silvia Ferreira, que não era traficante nem nada. Seu único crime: ser pobre e
negra, morar em uma favela e por isso estar sujeita à única participação do
Estado em sua vida, uma bala perdida. Os policias resolveram levar a mulher
ferida, não se sabe se para o hospital mesmo, ou para uma vala comum, onde vão
os “Amarildos” que todos os dias são desovados, por serem pobres e negros.
No caminho o fato estarrecedor e
que ficará marcado para sempre, com o porta-malas entreaberto, Claudia
desacordada caiu do carro e ficou pendurada por um pedaço de roupa, sendo
arrastada por vários metros, e eliminando qualquer chance de sobrevivência ao
tiro do fuzil. Claudia não acabou em uma vala comum, apenas por que um
cinegrafista amador captou o fato com um celular, e pelos motoristas avisarem
seus algozes.
A segunda edição da marcha, que
ocorreu no sábado, contou com pouca participação da população, somando os
maiores públicos de São Paulo e Rio de Janeiro não se chegou a um número de 700
pessoas. No entanto o que fica marcado e retratado é aquilo que essa estupenda
charge de Gilberto Maringoni, tão bem representa, os marchantes com Deus,
carregam em seu rastro o sangue de Claudia, Amarildo e tantos outros que são
assassinados desde 1964 (e antes), por representarem à burguesia brasileira uma
ínfima ameaça de que seu reinado sugando até que a ultima riqueza nacional,
possa um dia ser derrubado.
O autor da charge é Gilberto Maringoni.
Maringoni, é jornalista e cartunista, é doutor em História pela Universidade de
São Paulo (USP) e autor de ¿A Venezuela que se inventa ¿ poder, petróleo e
intriga nos tempos de Chávez¿ (Editora Fundação Perseu Abramo). Fonte: http://www.cartamaior.com.br/colunistas/294

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